15 de jan de 2009

Demoliam tudo. A casa já tinha virado entulho, o chão de terra estava revirado.
Lá aonde eu tinha pisado, caminhos traçados inúmeras vezes no jardim antes cuidado.
Só vi homens trabalhando, tiravam da terra os últimos detritos. Algo ia ser construído ali. Tudo ia virar definitivamente passado e aquilo me doeu. Paisagem na memória que não calava no peito.
Mas os homens me olharam e deixaram que eu me despedisse. O coreto se desenhou de novo: pegaram algumas partes da treliça de madeira e colocaram-nas sobre o círculo de cimento que ainda restava no chão. Eles deixaram que eu me despedisse. Eu pedi: "posso dançar, como dançava aqui antes?"
Os homens se mantinham ali, me guardavam. Eu frágil, eles doces e tristes como eu. Liguei a música nos meus ouvidos e dancei. Girei contando a valsa e senti a brisa da tarde, fresca como eu quando menina. Girei, o vento girava em mim. Melancolia alegre. Teria aquilo pra mim, pra sempre. Percebi de novo os homens, que aguardavam pacientes. Então, deixei que eles trabalhassem e saí dali. As treliças viraram entulho e as picaretas quebraram o círculo de cimento.
Essa foi a despedida.
Ainda ouço a música.

28 de dez de 2008

ABRIR OS OLHOS

Foi num dia, numa tarde. Eu me virei e peguei os óculos do desconhecido ao meu lado. Eu só estava brincando. Resolvi vesti-los. Foi uma resolução não-planejada. Um gesto tão diminuto, eu não esperava...
Abrir os olhos é um ato.
Sem querer, subi a cabeça acima do nível da água e avistei de novo a terra e o céu. E respirei. E o caminho se abriu. Eu não sabia o que viria a seguir...

Foi num dia, numa tarde. Eu andava pela rua e deixei que meus olhos encontrassem os dele. Eu permiti o encontro. Depois, fechei os olhos e deixei que ele me levasse. E pelo caminho éramos os dois no rastro do meu cio.

Você me perguntou pra onde eu olho e chamou pelos meus olhos. Você perguntou: "você está olhando pra onde?" Eu respondi: "Pra lugar nenhum." Eu estava olhando pros novos lugares que reencontro dentro de mim. Eu precisava daquele instante pra reconhecê-los. Mas depois eu voltei a olhar pra você. E lembrei que seus olhos eram de mar.

Abrir os olhos é uma escolha. Abrir os olhos é uma necessidade.

27 de dez de 2008

Borges

Mirar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água
Sentir que a vigília é um outro sonho
que sonha não sonhar, e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho
Ver no dia ou no ano um símbolo
dos dias do homem e de seus anos,
converter o desrespeito dos anos
numa música, num rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, no pôr-do-sol
um triste ouro, assim é a poesia
que é imortal e pobre.
A poesia volta como a aurora e o pôr-do-sol.
Às vezes numas tardes uma cara
nos mira lá do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde.
A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, não prodígios.
Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal
de um mesmo Heráclito inconstante,
que é o mesmo e é outro,
como o rio interminável.

21 de jul de 2008

Interditada

Tudo se passa diante de mim
TUDO
tudo passageiro menos a falta de que nem tudo passe
a criança caminha segurando as mãos dos pais, namorados passeiam, a mulher saboreia um café, o menino dorme no carrinho, o velho atravessa a rua encurvado, a garota olha a vitrine
por instantes olho para o que passa
depois caminho de volta pro vazio, levando dois pacotes de supermercado
será que o vazio passa?

28 de jun de 2008

Medir forças com o destino é loucura inútil
deixar-se ir na mesma direção é loucura boa
já tentar a contra-mão...
a cabeça faz caminhos obscuros mas... frestas de luz vazam pela trama confusa
assim
não sei mais se posso confiar no que julgo ser
preciso-necessário-correto-apropriado-adequado-ideal
talvez só precise de um pouco de loucura
abrir as mãos e deixar que escorra...

24 de abr de 2008

No jardim do meu pai os pássaros vem cantar de manhã. Meu pai quis que tivéssemos um jardim pra que acordássemos de manhã junto com as árvores. O jardim nos acolhe.
Meu pai sempre cuidou pra que nos sentíssemos acolhidos, às vezes parecia se importar mais com o bem-estar dos outros do que com o próprio.
Quero acolher meu pai agora.

20 de abr de 2008

Inventava gente pra lhe fazer companhia. Levava uma vida platônica, olhava as coisas à distância. Um constante estado de espera.
Até que um dia, no meio do vazio inventado por ela, sentiu uma dor que só pode ser cantada em espanhol. A dor do desejo distante. Todo seu corpo queria chegar bem perto e sentir.
Inesperadamente caiu e no meio da sua queda se viu no meio de uma floresta condenada a morte, onde o sol se esquecia de iluminar. Tudo que tocava se esfacelava. A dor de ver próximo o fim.
Quis inventar tudo de novo mas os olhos de dentro deixaram de ver quando os olhos de fora ficaram vidrados na morte. Nem lá nem cá - sem refúgio.
EN LOS OJOS
EN EL PECHO
DOLOR

13 de abr de 2008

Bem... parece que se anuncia uma mudança - Fico me perguntando em que nível se dão as mudanças -por dentro e por fora, às vezes mais um às vezes mais outro
O quanto a realidade que tomo como certa é produto da minha leitura e o quanto da minha leitura é nítida ou turva
Ponto de vista muda ou posição das coisas concretamente muda?
E quando esses questionamentos se transferem pro corpo...
sou uma cagona pra acrobacias, mas quando dei minhas voltinhas pelo ar e pelo chão (gracias gracias Ana Thomaz) o cérebro que bóia aqui dentro fez tóóóin.... e meu corpo todo se perguntou: oncotô? proncovÔ?
essa carta me traz essa mudança de chave, essa mudança perceptiva em toda sua plenitude
mais do que uma conclusão meramente intelectual, uma revelação vivenciada
sei que tradicionalmente a leitura do tarot atribui uma série de significados outros a essa carta
mas pra mim, a mensagem trazida por ela é muito particular
que venha
que venha

10 de abr de 2008

hummm?

palavras ditas por mim estão virando realidade... hummmmm...
o tempo de demora do ônibus, a hora da chuva, um desfecho, um começo...
tem essa palavra agora, dita e redita, que quero muito
é a palavra que guarda o som do seu nome
quero ouvi-la saindo da minha boca
doce
muitas e muitas vezes