25 de dez. de 2007

Lembrete pra grudar na geladeira

medo faz tudo parecer maior do que de fato é.
Tenho mais força do que me dou conta de ter.

23 de dez. de 2007

Vamu acunversá

Os pôbrema é de intrepetação e escreveção das palavra nos papér. Pôbrema de intrepetação e escreveção das vida. Os nemorônimo tomaro muita coca-cola e num fununciona dereito, os nemorônimo tá funhanhado - os pensamento e as ação tá tudo funhanhado. Os coração no peito se escondeu com medo dos baruio e ficô enconfundido. Os medo trapáia tudo. Os pôbrema tem que se arresolvê porque as unica coisa firme é as vontade. E as vontade qué fala arrto a valê. As vontade tá tudo se revirano qui dentro querenu sarrtá pra fora pra modiapessoa vivê de fato.

17 de dez. de 2007

tranquili... o quê?

que tipo de saudade é essa - saudade sem pé nem cabeça? saudade de ter saudade que faz parecer ser saudade o que não é. procura que não cessa sem saber pelo que. cansaço.
caminhada pesada. o transporte público me leva. em trânsito de um lugar ao outro, esqueço que estou parada em lugar nenhum.
o lugar onde estou é lugar nenhum.
anodinia - quero forças pra chorar, que seja. se lágrimas vierem, que venham e lavem tudo e levem consigo o que tem que ser levado. e que eu vá pra lugar algum....
pela janela os galhos e as flores me convidam pra estar entre eles. Deus, preciso de dias de silêncio no mato.

16 de dez. de 2007

Meu olhar

Sobre importâncias

Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era estilo Bizantino do século IX. Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira do Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas minhas palavras.
Manoel de Barros


Então tá...

15 de dez. de 2007

que tipo de saudade é essa que aparece depois de parcas horas de distância? saudade sentida na barriga. procura que não cessa por nem um instante - cheiro, voz, pele, olhar que espero encontrar magicamente no meio de um trajeto ordinário... que vida é essa vislumbrada na sua presença? pedaço de mim que vai com você...

14 de dez. de 2007

rubra cascata

Quiescência invadida pelo fluxo que a levou à erupção.
O ventre pulsou por oito dias inteiros. Por oito dias, com fúria, dando sinais de que as chamas queriam que todo corpo entrasse em brasa. O ventre rio revolto que levava as beiradas das vizinhanças. Ventre terra puxando os desejos pro chão. Ventre furacão fazendo o peito bússola rodopiar.
Depois de oito dias, o que ficou foi paisagem estranha.
Tempo de reconhecimento.
Caminhos há muitos, só não se sabe se o destino é uma fonte, um precipício ou se é só um retorno pelo qual se fica dando voltas num mesmo lugar.

12 de dez. de 2007

Surpreendentemente tranquila - ainda dando voltas em mim mesma, ainda enxergando que enxergo pela metade.
Mas sabe... acho que tô aceitando a pessoa que vejo no espelho quando escovo os dentes. Afinal, sou constante e inseparável companhia pra mim mesma.
Olho pra mim mesma, me pego pela mão pra caminhar um pouco mais longe - daí também me deixo puxar pela mão pra ir um pouco mais longe.
Então, tá bom. Partes em concílio. No peito, a bússola.

8 de dez. de 2007

sozinha

Solidão como um estado essencial.
É na solidão que tomo decisões, que nasço e morro um pouco todo dia. Por mais que haja alguém... no final, de tudo que recebo e ofereço, o que fica se dimensiona em mim no espaço da minha solidão.
Em última instância, enfrento desafios na solidão. Desafios duros às vezes.
Uns falam em solitude - fui procurar no dicionário e falava que solitude é a solidão dita de maneira poética. Talvez eu deva enchê-la de poesia.
Permeabilidade seletiva - é biologia e é um monte de coisa mais... é o mecanismo de construção da memória. Memória é uma das coisas com que se esbarra na solidão.
Sinto que os enfrentamentos mais intensos da vida desembocam em momentos de decisão solitária, no fundo.
Gosto de pensar que outra coisa com que se esbarra na solidão é a sabedoria. Nem sempre esse encontro se dá da maneira mais divertida, digamos assim, mas sabedoria é um dom escondido às vezes na vida corriqueira.
Talvez eu viva agora um momento de solidão tão aguda que por um instante esqueça o que é estar acompanhada.
mas não quero que haja pesar.

24 de nov. de 2007

em estado de graça...

Que alegria estar em Piracicaba, abrindo oII fentepira com meus companheiros. Viagem de madrugada, noite curta de sono, apresentação num dia lindo de sol, público instigante - com direito a aparições sui generis de transeuntes bebados (um deles muito louco) - tudo tão vivo e intenso.
No começo da apresentação eu estava tão nervosa que tive um daqueles brancos-autísticos - não lembrava aonde estava, mal lembrava o texto e mal conseguia coordenar a fala. daí respirei fundo e pensei: poxa, isso é uma chance única de viver algo bom. e eu quero isso. quero sentir prazer. pensei: QUERO SENTIR PRAZER AGORA! e meus olhos se abriram pro público e pros meus companheiros de cena e eu lembrei daonde estava e de tudo mais. e curti muuuuuuito. muito mesmo. Gostei de ter resgatado a mim mesma num momento de consciência. posso dizer que me trato muito melhor e cuido muito melhor de mim do que antes já foi um dia.
Claro que tenho críticas, claro que quero melhorar coisas, mas o importante é que VIVI O MOMENTO.
depois, almoço.
depois viagem e figada cascão de presente pra meus pais.
depois aula.
eu FELIZ e cansadinha.
registro pra não esquecer esse ESTADO DE GRAÇA E FELICIDADE.

16 de nov. de 2007

Cinema

Fui assistir "Via Láctea" da L. Chamie. Pra quem curte poesia, música. Filme de ação interna. Pra quem curte a palavra.
A poética da vida intensificada pela morte. Ela fez uma interface delicada da beleza das palavras com a beleza das imagens.
Não fui assistir tropa de elite. sou ranzinza. filme que faz muito sucesso eu fico desconfiada. Talvez só pegue em dvd. Não sei. Talvez deixe a rabujice de lado e veja. não sei.
Fazia tempo que não ia ao cinema.
Antes do "Via Lactea" tinha visto um outro que nem lembro o nome que era um monte de curtas feitos por estrangeiros sobre São Paulo. (Aliás, adoro ver a cidade em tela grande. tudo que tem de São Paulo no cinema, gosto de ver). Que truque aquilo. Medíocre. Pagação de pau pros caras de fora que não captam nem um milionésimo do que é São Paulo. Uns curtas xoxos, cada argumentação tosca, feita em guardanapo (e mal-feita) de bar de hotel chique que só vai turista. Preferia que tivessem dado a câmera pra quem nunca fez cinema mas que sente na pele a poética dura de São Paulo. Ia ser mais interessante.
Aliás, falando em cinema, eu tô tão rabugenta, mas tão rabugenta, que não vou mais em cinema de shopping. muita pipoca e gente arrotando coca-cola. Quem sabe um dia eu fique mais rabugenta no cinema do que o antunes filho - que um dia sentou duas fileiras atrás de mim no espaço unibanco e suspirava cada vez que eu fazia rãrã nos trailers (por que eu tava com faringite). Eu tava munida de balinhas pra não tossir na hora do filme, mas uma tosse um pouco mais forte saiu na hora da propaganda do unibanco aig e o antunes fez "tssss" e mudou de lugar, pro outro lado do cinema. ai, antunes, eu nem tossi durante o filme, viu?

1 de nov. de 2007

Que loucura ter me transformado numa caricatura de mim mesma. Peguei todas minhas vontades, todos meus desejos, tudo que me caracterizava e reforcei os traços até virar uma garatuja incompreensível. Fui desenhando linha sobre linha tentando deixar o desenho mais evidente e o que se formava, então, grotescamente se retorceu, entortou, desfocou.No anseio de melhorar o quadro, o que antes indicava uma figura virou um borrão de cor gritada. Eu disse indicava - por isso o anseio de "melhorar" o desenho... Incapacidade de esperar o que é indicado se realizar da forma que queira. O que é sugerido se revela quando há que se revelar.Mas fui rabiscando no anseio de finalizar o que não era pra ser finalizado. Agora ficou sendo o que não é. Queria uma folha em branco AGORA!

28 de set. de 2007

Tenho pensado nesse negócio de ser atriz. Acho assim que tenho tanta coisa pra aprender. Já fiquei matutando qual seria a melhor maneira pra isso - trabalhar do lado de atores experientes, ler pacas, pedir conselhos, fazer cursos, ... e tenho chegado a pensar que talvez tudo o que eu deva fazer é tentar ser uma pessoa melhor. na verdade, acho que é isso.tenho que viver mais, me entregar mais, experimentar mais, oferecer mais pra vida, me abrir mais nos meus relacionamentos... enfim, ser uma pessoa melhor. acho que só assim eu poderia criar uma coisa intensa mesmo, fazer arte mesmo. indo pra além do que eu sou. mas chegar nesse lugar não dá pra chegar só nos 100 minutos de peça - chegar só se chega se for por inteiro....hoje agradeço muito ao apoio dos que encontrei pelo caminho. muito mesmo. mas começo a me colocar cada vez mais como agente principal na história.e começa a crescer a vontade de ser agente pra outras pessoas também - deflagrando pequenas explosões criativas junto a outras pessoas também - vontade de aprender a dar aula. vontade de abrir as pernas pro mundo. de mergulhar mais. de ser mais....tenho um sonho. um sonho muito específico que já cultivo há anos. ai... quero muito rodar cada cantinho do Brasil. quero rodar desde cidadezinhas pequenas no centro-oeste até povoados na zona da mata e no litoralzão. ir lá pro sul também, bah e lá pro amazonas também. me enfronhar nesse VIDÃO que é o Brasil. Num grupo, mambembando juntos.

18 de set. de 2007


Uma vez eu vi uma reportagem sobre uma cerejeira no Japão que está florindo há mais de mil anos. Não é força de expressão, é mais de mil anos MESMO. Passou idade média, passou renascimento, grandes descobertas, início da industrialização, guerras... hoje a cerejeira tá lá. É um templo natural.
Outro dia passei em frente de uma igreja vazia e entrei um pouco. Silêncio esparramado. Ouvido preenchido de silêncio. Eu não sou católica mas igrejas são os templos mais fáceis de encontrar perto do ponto de ônibus. Com aquele silêncio denso preenchendo meus ouvidos, senti que resvalei num estado especial. ESTAR ali esparramada como aquele silêncio.
A cerejeira tinha um tronco grosso, grande, que ia dando origem a muitos galhos que iam se afinando conforme se distanciavam do tronco. Galhos que ficavam todos floridos na primavera. A cerejeira passava por todos os ciclos - a mudança do outono, a contenção do inverno, o nascer da primavera, o reluzir do verão - há todos aqueles anos. Majestosa, observando, sentindo, e dizendo.
Queria escutar o que a cerejeira diz em seu silêncio esparramado em galhos e flores.


16 de set. de 2007

olhos

Olhos que sempre encontro e que sei que me encontram.
Mas... Que falta de coragem... caipirice ou o quê?
Sabe quando tem uma pessoa que não lhe foi apresentada de fato mas que você sempre acaba encontrando nos mesmos eventos?
posso enumerar as ocasiões. mas quando estou beirando falar... engulo a fala!
engulo-ME!
chato isso. e quem me chateia sou eu mesma. vai entender...
minha intuição me diz que ele me nota.
humpf...intuição? a quem estou enganando?
não se trata de intuição, apenas bom senso: você não notaria alguém que fica te olhando insistentemente, inicia caminhar na sua direção, posiciona os lábios pra falar e, num milésimo de segundo, vira o rosto e muda a rota?
ai, como se chama isso?
ele deve ter notado uma pessoa estranha que frequenta os mesmos lugares que ele. só. como eu noto, todos os dias, o vendedor que canta vendendo bala de coco na porta do metrô. ou seja, parte da paisagem, sem nenhum interesse em particular.
mas o caso é que ele me interessa, em particular.
mas se me comporto como paisagem, é isso que dá...
AI!

14 de set. de 2007

espinhas e rugas
lucidez e dispersão
ceticismo e ingenuidade
E eu, no meio do caminho, embasbacada pelo fluxo dos pedaços de mim que violentamente se cruzam na contra-mão
neve no verão, folhas caindo na primavera, flores nascendo no outono
fora de estação
música com ruído, silêncio com ruído, música sem silêncio
estranha combinação

9 de set. de 2007

Memória.
Os fragmentos que escolhi. Se pudesse escolhia de novo - como se meus olhos fossem outros e captassem outra parte que não registrei. Outro ponto de vista me faria chegar a outra conclusão. Me daria conta que muito do que aprendi está baseado no que imaginei que foi mas que, de fato, não foi.
Mas o que foi mesmo?
Desconfio do que tinha como certo.

6 de set. de 2007

queria tudo pra ontem... me movo hoje a partir do impulso de ontem...
Descompassada...
Vontade e ação em descompasso
deeeeeeeeeeeelay......
a espera me faz subir pelas paredes - mordo lábios
me canso de mim mesma e não sei mais onde procurar em mim. não me percebo além da página 3...
tenho impressão de ter muitas outras páginas além. me arrisco a acessá-las?

1 de set. de 2007

O sono quase me envolvia e minha alma desgrudou um tantinho do meu corpo. Alma não sei direito o que é, mas assumo aqui como sendo a parte de dentro de mim. Pois que ela queria se desgrudar e se lançava repetidas vezes, contra o topo da minha cabeça, pedindo permissão pra sair. Mas observando o dentro e o fora de mim estava "eu". Este "eu" que não sei direito como nomear mas que acaba sempre dando a palavra final.
"Eu" disse pra tudo ficar no mesmo lugar. Disse pro dentro e o fora ficarem no mesmo lugar, que ainda não é hora de separar. "Eu" disse pro dentro se acalmar e pro fora se mexer. Falta de sincronia, "eu" disse. "Eu" disse que está tudo bem. "Eu" disse pra ouvir o que está além do fora, do dentro e pra além do "eu". Aí já não sei o que é pra ouvir, mas se "eu"disse, tá dito.
É a palavra final: escutar.

26 de ago. de 2007

Fui à biblioteca do Centro Culural São Paulo. Comecei a frequentar lá em 1995, 1996, por conta das peças de teatro e livros de história. Lembro que às vezes escutava um ou outro vinil, sentada nas poltroninhas da discoteca. Pedia algum álbum antigo do Chico, alguma coisa da Nara Leão, Secos e Molhados e por aí vai. Encontrava com alguns frequentadores assíduos, principalmente idosos que moram na região. Velhinhos que vão com suas sacolinhas de plástico e que ficam ora lendo um livro, ora puxando conversa com alguém próximo. Não ia lá há uns três anos, pois virei freguesa do lasar segall, onde o acervo de peças teatrais é bem maior. Mas o segall tá em greve até o dia 31 e fui no ccsp mesmo.
O caso é que vi, a distância, um dos velhinhos frequentadores do ccsp e senti um frio na espinha.
Era o mesmo velhinho, de cabelo branco e olhinhos de jaboticaba, com sua tosse baixa, enfisematosa. Eu já tinha o visto passeando entre as estantes, pegando livros de filosofia e poesia - há uns três anos. E ele estava lá, há três dias. Não o via há três anos e ele estava lá, da mesma maneira, anônimo entre livros, sedento por conversa.
Frio na espinha.
Lembro das conversas - sobre sócrates, sobre olavo bilac, sobre os iluministas, ... ele se orgulhava das pequenas pérolas intelectuais que ele ia colhendo e oferecendo ao procurar pequenas conversas que ele mantinha timidamente. Precariamente - seus olhinhos de jaboticaba iam e vinham de lugares na memória, muitas vezes olhavam mais pra dentro que pra fora. Ele parecia sempre sozinho e a biblioteca parecia seu único meio de conviver. Ele chegava de manhã e saia sei lá quando. Há três anos.
E ele estava lá há três dias. Me fez sentir a vida tão pequena, tão solitária.
Eu não quis falar com ele. eu senti vontade de chorar quando o vi, cabelos dessarumados olhando nas estantes de poesia brasileira. Como uma criança que quer brincar e ainda não tem traquejo, uma mulher que quer dançar e ainda não tem ritmo, um homem que quer declamar poesias e ainda é meio gago. Ele prossegue desajeitado, ele tenta. timidamente e solitariamente, ele tenta. Com um sorriso melancólico e quase sem esperança, ele tenta. Pacientemente, lhe falta a agressividade, lhe falta a raiva, a impaciência. Frágil.

22 de ago. de 2007

chuto portas e babo hoje. choro e cuspo dentes. uivo surdo. quero quebrar tudo com meus braços fracotes. corpo inerte. força em falta. catarro escorrendo do cérebro atravessa a garganta. CARNE.
NÃO. NÃO. Não tenho vontade de dizer sim. NÃO. hoje é não. Não dorme do meu lado. não respira na minha pele. seu hálito não. não você.
quero expor as minhas entranhas. quero agarrar tudo que tem dentro e por pra fora. NÃO VOU ME CONTER PRA TE POUPAR. VOCÊ NÃO ME CONTÉM!
cuspo seus dentes. chuto sua porta. escarro em você.
fôlego...
fôlego...
caio no chão. silêncio. lágrimas nascem do tremor. silêncio.
engulo. respiro.
eu não sei de mais nada...

21 de ago. de 2007

Penumbra

Era uma vez
Uma terra onde só existia a penumbra.
Era sempre noite de lua nova – a noite começou um dia, a lua nova ficou e nunca mais saiu. Os olhos dos bichos e das pessoas foram se acostumando com aquela penumbra e foram esquecendo o que era o sol. O único contorno mais forte que se via era o contorno da lua nova – de resto eram somente os fracos contornos na penumbra.
O caso é que um dia nasceu uma menina que, quando nasceu, também só sabia o que era a penumbra. Mas ela sonhava muito.
E nos seus sonhos apareciam imagens que seus olhos nunca tinham visto. Ela sonhava com o que nunca tinha visto, como se seus olhos tivessem alcançado lugares dos quais ela não havia se dado conta.
Aqueles sonhos foram lhe dando vontade de ver de verdade, acordada, o que ela só via em sonhos. Por mais que ela procurasse por ali algo que havia sonhado, ela não encontrava. Ela se deu conta que teria que ir a outro lugar pra ver acordada o que via nos sonhos. A vontade de achar aquele lugar foi tanta que ela um dia pulou um pulo que virou vôo e ela, levada por um vento, foi parar na lua.
E lá estava ela na lua que ela via de longe. Lá não tinha nada. Nem bichos, nem gente. E nem contorno nenhum pra se olhar – pois que se ela estava na própria lua, como iria olhar pro seu contorno? Ela chegou a sentir medo, pois era uma escuridão absoluta e ela estava completamente sozinha. Era um escuro muito escuro! Não se via nada. Nada mesmo. Então devagar, sem ela perceber, a lua foi girando.
Girando, girando... até que algo forte e intenso preenchia seus olhos. E aquecia seu corpo. E matizes preenchiam e desenhavam o que ela via, lhe lembrando do que ela havia vislumbrado em seus sonhos. Era mais forte do que seus olhos podiam agüentar e ela sentiu medo e espremeu os olhos – seguia de olhos abertos, espremidos mas abertos . Então, devagar, sem ela perceber, a lua foi girando.
Girando, girando... e voltou pra escuridão de novo. Ela continuou ali, girando junto com a lua por mais algum tempo. Indo da ausência absoluta de contornos pra explosão luz – sol! Ela já havia ouvido falar em sol, mas nunca tinha de fato visto o que era o sol. E seus olhos foram se acostumando a trabalhar daquele jeito novo – indo aos extremos, agora sem ter medo.
Mas não tinha ninguém ali. Nada. Nem bichos nem gente. Ela ficou com vontade de ter companhia de novo e desejou voltar pra terra daonde tinha vindo. Fechou os olhos. E sua vontade a levou de volta.
De volta a terra da penumbra, seus olhos não passeavam mais pelos extremos e ela se perguntou o que acontecia com aquela terra. Será que pra ver o sol e a escuridão ela precisaria ficar sozinha na lua? Mas porque naquela terra era sempre noite de lua nova? Por quê?
Então ela descobriu: aquela terra tinha parado de girar! Aquela terra da penumbra tinha parado de girar!
Aquela terra precisava girar de novo! Ela quis girar a terra de novo e fez muita força. Muita força.
Mas se deu conta que a terra era muito grande pra ela girar sozinha. E saiu pra procurar quem quisesse girar a terra com ela. Talvez se mais pessoas fizessem força pra girar a terra, a terra da penumbra voltaria a ver o sol e os contornos fortes e as cores de tudo...

13 de mai. de 2007

engano a mim mesma.
bizarro estratagema criado por mim mesma.
repudio essa maldição em que eu mesma me meto.
me escondo nessa mesma maldição.
é como adiantar cinco minutos do relógio pra sair na hora - só funciona se acreditar. olha-se pra hora marcada e acredita-se na hora modificada por si próprio. auto-engano útil.
mas o engano que eu tramo e no qual eu mesma caio não me é útil agora. é verdade que se foi criado é porque teve utilidade em algum momento, mas agora quero me desfazer dele. está me sendo um peso.
não quero mais carregá-lo comigo.
quero ficar leve disto. quero respirar.
por que é difícil?
porque é preciso mudar as rotas.
eu me acostumei com estas rotas, pra deixar de usá-las, preciso usar outras. e quaisquer outras rotas são desconhecidas.
peço força a mim mesma agora pra decidir andar por estas rotas desconhecidas. peço benção a mim mesma, peço permissão a mim mesma. peço coragem a mim mesma.
e quem quiser continuar trilhando por estas rotas que me desgastam tanto, que continue. quem quiser que continue e que me deixe. me deixe.

6 de mai. de 2007

Engraçado como, em certos casos, algumas experiências levam o indivíduo a experimentar o reverso do que era esperado.
Experiências políticas que levam à alienação política, experiências amorosas que levam à solidão voluntária, experiências coletivas que levam ao individualismo, experiências místicas que levam ao ceticismo. Isso pra citar alquimias sombrias, mas há alquimias luminosas também como experiências de sofrimento que levam por caminhos tortuosos a descobrir a amorosidade, experiências de repressão que levam a posturas libertárias.
Conclusões que mudam o rumo num giro de 180 graus. Talvez por achar fragilidades no que antes dávamos por tão certo.
Quanto a experiências místicas que levam ao ceticismo...
Bem, tive uma fase mística. Todo mundo tem a sua, oras. A minha foi junto com um grupo que seguia um guru. Pseudo-misticismo protegido por uma redoma. Como explicar essa redoma? Bem, acho que nossas ações se circunscreviam num espaço muito limitado - como dizer "eu te amo" quando todo mundo tá felizinho de banho tomado, sem conflitos na hora de discriminar os gastos da conta corrente, numa vivência em que se espera que todo mundo fale eu te amo.
Ok, legal, a gente se desacostuma a dizer "eu te amo" no dia a dia, mas é uma panaquice, por sua vez, se acostumar a dizer "eu te amo" só com cheiro de incenso e musiquinha new age.
Passei, então, a amar o prosaico, a ouvir o tal "eu te amo" dito de outras maneiras, muitas vezes sem palavras.
E passei a ficar de bode de vivências com figuras iluminadas que acendem incensos e dizem "eu te amo" com cara de mané.
Pois fui numa dessas ontem. Ai, ai, ai...
A mulher trabalhou com um cara conceituado dentro do teatro e tava marcada um palestra dela. Fui, né?
Cheguei lá ela começou a falar da mãe terra e do pai céu - bicho, na real: eu gosto da mãe terra e do pai céu. Sério. (Ó só: Eu tava esperando o trem outro dia, na estação prefeito saladino, e do lado da plataforma tem umas flores, uns matinhos e grilinho cantando no começo da noite. E eu pensei: cara, se eu ouvisse grilo e sentisse cheiro de mato toda noite, eu seria outra pessoa. É.)
E ela falava pra gente falar love love love e se abraçar. Cara, tinha gente com lágrima nos olhos.
Ai...
Daí eu falei comigo mesma: "tá vendo, daniela, tá vendo? você virou cética! Porra, é legal falar com a mãe terra, dar abraços e dizer "eu te amo". Não é?"
Mas daí pensei no contexto: abre aí a porta do teatro e vamos chamar um mendigo pra abraçar e dizer eu te amo, vai. Vamos chamar todo mundo - o cara que te pentelha todo dia no trabalho, o cara que tá vendendo pipoca na frente do teatro, o cara que te dá repulsa ou medo. E vamos continuar dizendo eu te amo depois que acabar essa pseudopalestra, sem precisar ninguém mandar, naquela hora em que a gente tá cansado, naquela hora em que parece que o mundo é feio.
E a mulher se achava a azeitona da empadinha, conectada com as energias sutis do universo. Ela limpa o cu com as energias sutis do universo quando acaba o papel higiênico do banheiro dela? O problema não é limpar o cu com papel higiênico, o problema é achar que limpar o cu com papel higiênico exclui estar conectado com as energias do universo. O problema é achar que OU se está conectado com as energias do universo OU se anda na rua -se faz feijão na panela de pressão- se lava roupa-se grita pro filho não chutar a bola na vidraça de casa...Ou uma coisa, ou outra. Ou se é transcendental ou se é um burrão.
Isso pra mim é só onda pra vender mais incenso e cds new age.
Taí, minha vivência ananaíra me deixou cética.

2 de mai. de 2007

conheci dois gatos fofos. um é branco e se chama Sal. a outra é preta e esqueci o nome, mas ela é praticamente um cachorro - ela procura carinho, lambe o dedão do seu pé e despenca no chão do seu lado, de barriga pra cima, esperando cafuné.
dizem que os bichos tem um pouco do humor do dono. hummmm...
nunca tive nem gatos nem cachorros. os bichos que tive foram: um casal de peixes cor de laranja que se suicidaram pulando do aquário direto pro tapete da sala; um casal de periquitos que viviam se bicando e brigavam até sangrarem - foram dados pra outra pessoa, depois de muito barulho.
mas agora queria ter um gato. talvez se eu tivesse um... talvez ele roesse unha ou fosse amigo de um cobertor, não sei, mas a convivência comigo o deixaria estranho de alguma forma. mas seria bem amado o bichinho. o problema é que fico muito tempo fora e teria que ser um gato com muita estabilidade emocional.
mas seria bom. uma companhia além das palavras. tô sacando que não tenho me arranjado bem com palavras ultimamente. não tenho conseguido me comunicar do jeito que quero com elas. a música tem me traduzido melhor - não toco nadinha, mas me aproprio de músicas alheias que ouço.
taí, mulher de poucas palavras, ouvindo música e convivendo com gatos - o estereótipo da solitária.
hoje notei que estava usando uma meia furada e que o dedão do meu pé é amarelado. que medo. vou jogar fora a meia.
e se tiver um gato, ele vai é ser boêmio, viver perambulando por aí e emitir miados orgásmicos todas as noites. quando ele quiser, vai poder aparecer pra um lanchinho.
então fica assim.

30 de abr. de 2007

vinho, vinho, vinho, vinho.
embriaguez suave.
pés suave flutuando, pairam sobre o chão. decantação de pensamentos sombrios, evaporação da alma que sai pra passear pela janela.
ar fresco refresca memória. recortes da realidade envolvidos pelo aroma amadeirado, perspectiva do olhar redimensionada pela cor tinta.
relaxamento. compreensão sem ter entendido nada.

18 de abr. de 2007

Vazio tão grande de você não ser quem eu sonhava que fosse.
Vazio por não ter mais nada por alcançar, por falta de vontade de me lançar.
Eu vislumbrava. Antes deixasse de descobrir que não vislumbrava nada além de imagens criadas na minha cabeça, somente.
O meu olhar abarca o que não consigo presentificar. Olhar desencontrado do presente – olhar não atento a realidade, de fato. Recortes de passado idealizado... Imagem de futuro inverossímel?
Necessidade de fincar os pés no chão. Ilusão quebrada.
Destruição da vontade imaginosa que incitava o passo. Busca de vontade outra, esta mais atenta a realidade.
Sua presença se desmancha em mim. Você não está aqui dentro mais. Que nem um fio d’água desaparecendo você. Deserto incômodo em mim. Andarilha a procura mais uma vez. Difícil andar de novo a procura, de novo... a procura de que, afinal?
Procurei te criar a partir de mim mesma – me perco em ruídos. Tão freqüente isso...
Cansei de ruídos, eles não passam pelo meu coração. A nitidez de um som distante dói, mas pelo menos passa pelo coração.
Eu ainda vou...? Pra onde?

31 de mar. de 2007

dor tão grande de ser quem eu sou.
dor por não conseguir alcançar, por me segurar.
eu vislumbro. antes não vislumbrasse. meu olhar abarca o que não consigo presentificar. olhar descompassado do presente - o presente só acaba de se desenhar quando já virou passado e o futuro não se desenha com clareza, com lacunas de presente. Continuidade quebrada.
minha vontade não tem casado com meu passo. meu passo é lento, a vontade não.
meu sentir não tem casado com meu gesto. meu sentir alcança, meu gesto fica contido.
no momento em que o mundo estiver prestes a acabar, eu queria estar do seu lado, pra sentir que pelo menos o que valia aqui nesse mundo eu vivi. pra eu poder olhar pra minha existência e saber que eu estive com você. se é que eu tinha algo de importante pra fazer aqui nesse lugar, uma das coisas era me conhecer você.
agora, dói saber que não sou escolhida; que se você precisa da mão de alguém, essa mão não é a minha.
mas
sua presença não pára de transbordar em mim. você está aqui dentro daqui já. tão sobrepujante, que nem um mar você, impossível de ver a totalidade de você de tão vasto, vontade de me perder aí em você.
procurei te negar em mim. me perco em ruídos.
o som nítido que eu consigo ouvir vem através de você. cansei de te negar, aceito as lágrimas. cansei de ruídos, eles não passam pelo meu coração. a nitidez de um som distante dói, mas pelo menos passa pelo coração.

28 de mar. de 2007

pseudoempatia?

voltamos ao básico - o aurélio diz que empatia é: tendência para sentir o que se sentiria caso estivesse na situação e circunstância experimentadas por outrem. Ou seja, um estado em que se experimenta colocar-se no lugar do outro de alguma maneira, penetrando na lógica alheia que guia sentimentos e idéias.
e o que seria a pseudoempatia??
a empatia é um fim em si mesma ou tem alguma finalidade prática?
bom, quem ouve e se coloca no lugar de outrem pode gerar uma relação de cumplicidade e intimidade. acho que fui empática com algumas pessoas na minha vida - a ponto de passar a compreender o que não compreendia antes só por abrir os ouvidos/olhos/poros pra um gesto que a princípio eu não teria, ou a ponto de sentir fisicamente sensações descritas por alguém. e me sentia compartilhando experiências alheias.
agora,
nunca me dei conta do que fiz a partir desses encontros empáticos. utilizei esse ponto de contato para alguma finalidade prática?
tento me explicar a partir de um exemplo: indivíduo 1 e indivíduo 2 trabalham no mesmo lugar em funções diferentes. 1 tem um cargo de planejamento e coordenação, 2 tem um cargo de execução e põe a mão na massa.
2 viveu situação difícil, onde sofreu grande pressão psiocológica, no trabalho. há uma reunião entre várias pessoas que trabalham no lugar, entre elas 1 e 2. todos são chamados a colocar os pontos que julgam relevantes. 2 vai expor sua dificuldade e reinvindicar por uma mudança de estratégia, por uma redistribuição de tarefas para que não sofra sobrecarga. 1 acolhe tudo o que 2 fala e estimula 1 a se abrir, contando inclusive como se SENTE. 1 pergunta várias vezes, de diferentes formas, como 2 se SENTE. 2 expõe sua vulnerabilidade. 1 a ouve e faz gestos de concordância com a cabeça, além de pegar a mão de 2.
1 aparentemente é empático a 2.
2 sente gratidão por ser ouvido.
1 aproveita a cumplicidade que se forma ali e, além de não redistribuir as tarefas, atribui MAIS TAREFAS AINDA para 2.
2 aceita!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ok, nessa hora você deve estar pensando em como 2 é trouxa, mas eu não conheço 2. conheço 1 e me relaciono com 1. não no trabalho.
outro exemplo: 1 desaparece do contato de 3. não telefona, não escreve email, nem torpedo, nem deixa recado em caixa postal, nem envia sinal de fumaça. 3 liga umas duas vezes sem resposta nenhuma. 3 fica de saco cheio e não procura mais por 1. quinze dias depois, 1 liga pra 3 falando que invadiram sua casa e seu pai foi internado para uma cirurgia no intestino, às pressas. 3 considera a situação vivida por 1, 3 pensa se tivesse vivido a mesma coisa como se sentiria.
mas 3 pensa... pensa...
3 aceita marcar um café com 1. o café não é bebido - 1 desparece e não liga de novo, dessa vez por quase um mês.
depois desse segundo estio, o número de celular de 1 aparece entre as chamadas não atendidas no celular de 3.
3 considera o risco de ser trouxa como 2.
3 tece considerações sobre a pseudoempatia e seus desdobramentos...

4 de fev. de 2007

ela pegou o telefone hesitante e ensaiou uma estratégia de convencimento pra ter coragem de falar. discou o número e ninguém atendia. desligou e pensou em desistir. daí a conversa consigo mesma:
- ah, pelo amor de deus, se arrisca vai! você não tem coragem de se arriscar por medo da morte de algo que nasça e de que você goste muito. mas se você não arriscar, não deixa nem chance pra nascer. daí não tem nada pra morrer. quanto mais você se distancia da morte pensando que acumula vida menos você vive! larga mão e liga. você está precisando de coisas à beira da morte na sua vida.
concílio entre as partes, ela ligou. (saltar de um degrau pra ela parece saltar de um muro de três metros, entendam a garota)
e ela percebeu que só conseguia ser verdadeira quando no meio de uma farsa - da necessidade de uma farsa pra ser verdadeira:
- oi! aqui é uma amiga de uma amiga sua... sabe o que é? essa amiga sua ela pediu pra que eu te ligasse pra contar uma coisa que ela percebeu e pra perguntar uma outra coisa. bom, ela queria contar que percebeu que às vezes quer fritar o ovo sem antes ter quebrado a casca, e que ela se ressente dessa tolice e gostaria de tentar fazer diferente. e o que ela queria perguntar é se você ainda tem paciência de falar com ela?
ele riu. e ela adora a voz dele.
e depois ela saiu andando e conseguiu ver o entradecer de novo.

16 de jan. de 2007

cisão interna enfrentada, confrontada, revirada e, por fim, desprezada. decisão se impôs - seja qual for o resultado da ação. atração se impôs.
apaixonada pela idéia de estar apaixonada.
e agora?
sabe lá...

3 de jan. de 2007

ver a madrugada se transformar em manhã quando o ar frio parece manter o tempo em suspenso, sentir o gosto gelado do suco de laranja depois de ter caminhado por incontáveis quarteirões debaixo do sol, conseguir escapar de uma situação de perigo e sentir-se salva, ver choro doído de criança depois de tombo feio ser acalmado por abraço materno, mergulhar na cacchoeiraaaa, receber elogio quando menos se espera, rir até fazer xixi nas calças, realmente deixar alguém ir, ver filhote de gato que acaba de nascer tentando se equilibrar nas patinhas, paçoca com chicabon, andar descalça na grama ou na areia da praia, ouvir o mar, cheiro de árvore de jasmim em flor, tomar café da manhã e ler jornal, rir sem saber direito porque, beijo no rosto, cantar